Amores (im)possíveis

O ser humano é incrível. Tem a capacidade de se apaixonar em um dia, no outro já esquece alguém. E o mais surpreendente é que a cada frustração amorosa, o universo parece conspirar a favor. Muitas vezes, após o término de um relacionamento, é que o indivíduo acaba por encontrar um novo alguém — daí o sonho recomeça novamente, desejos surgem, percepções são estimuladas, libidos graduais. Em Um Beijo Roubado, a representação dramática é do universo romântico de personagens em busca de sentimento, de amparo. A dolorosa sociedade que não se acostuma a sofrer traições, desilusões e descasos afetivos. O filme evidencia esses sentidos ao colocar a trajetória íntima de Elizabeth (Norah Jones), delicada jovem que sofre por ser trocada por outra. Já vivenciou ver seu namorado com outro? Já teve que experimentar ser desprezada por alguém que você havia depositado toda sua fidelidade? O que fazer para amenizar a dor de ver seu amor transando com uma amante? Surpresa e desamparada, a frágil moça encontra conforto em Jeremy (Jude Law), também de coração partido e desprezado pela ex-namorada. Tanto um quanto o outro se sentem atraídos, mas é o sentimento de ternura que impera, inicialmente. O contato entre os dois se inicia entre diálogos íntimos, um pedaço de torta de blueberry com sorvete e trocas de confidências em noites acolhedoras — daí o sentido do título original. O que parecia ser um filme de romance entre dois jovens perdidos pela dor do amor, torna-se uma trajetória de auto-conhecimento quando novos personagens se convergem no universo adocicado de Elizabeth. O diretor chinês Kar Wai Wong aqui estreia sua produção no cenário ocidental com muita sensibilidade.

A verdade é que este é um filme delicado sobre personagens em busca de carinho. Kar Wai Wong coloca no caminho da protagonista Elizabeth — "Lizzie" ou mesmo "Beth" como é chamada por um ou outro — indivíduos singulares que acabam por mexer com seu destino e garantem uma catarse sentimentalista em seu universo. Bem verdade, é uma amostra de histórias de amor com destinos infelizes, ou mesmo um retrato realista de sonhos destruídos. Cansada de sofrer e em busca de uma mudança de vida, Elizabeth parte para o mundo em busca de novo emprego e novas perspectivas pessoais. Cruza os EUA, passa a se corresponder por cartas com Jeremy, trabalha como garçonete em dois empregos. É então que se “esbarra” com Arnie (David Strathairn), um policial amargurado que não consegue esquecer sua esposa, Sue Lyne (Rachel Weisz), uma mulher que fugiu da relação por sentir-se sufocada e prefere vivenciar sexo casual com pessoas sem vínculos. Arnie não consegue viver satisfeito, tem tesão e sentimento pela ex — é através dele que Elizabeth percebe que suas frustrações são vivenciadas também por outras pessoas. É mais um exemplo de indivíduo que tem que lidar com o fim do relacionamento. Interessante que o filme coloca esses personagens na vida de Elizabeth por acaso, onde ela apenas os observa, ainda que faça parte da convivência de cada um. David Strathairn e Rachel Weisz aqui encontram um conforto interpretativo e exponencial atenção do espectador como o casal que vive a turbulência de uma relação já destruída pelo tempo de amargura, de amor despedaçado. As cenas de diálogos febris que caracterizam as brigas e discussões entre ambos são carregadas de emoção, é um dos pontos mais altos do filme.

Mais a frente, surge uma Natalie Portman tresloucada, interpretando uma sexy jogadora de pôquer de personalidade dúbia, Leslie. Ela não acredita nas pessoas, é desconfiada e representa a típica mulher que foge de vínculos amorosos para não sofrer. Ao ter contato com Elizabeth, passa a modificar as percepções dela também. Pois, com tantos seres humanos embriagados — e ausentes — de amor, condenados a sofrer demais, Elizabeth passa a refletir toda sua vida: "Eu descobri que não é tão difícil atravessar a rua, só depende de quem te espera do outro lado", compreende em dado momento no filme. Ao explicitar cenários humanos de desilusões amorosas, o diretor é muito perspicaz em arquitetar tomadas das intimidades dos personagens com o recurso de uma fotografia com cores fortes e tons amarelados/vermelhos cintilantes. É como se cada indivíduo ganhasse sua própria cor, alguns com tons quentes; outros mais frios, a depender da personalidade.

Na trama, o que fica mais propenso ao romance agridoce é o casal Elizabeth e Jeremy — a bela química em cena de Norah Jones e Jude Law é nítida. O casal transpira afetividade, ternura e certa sutileza sexual, de acordo com os desejos inevitáveis que ambos vivenciam. Seus personagens são reflexos da juventude que não se cansa de sofrer de amor, mas que, ainda assim, necessita de uma nova relação para sobreviver. A interpretação emotiva e meiga de Jones é o charme do filme, é surpreendente a maneira como a cantora demonstra talento e traquejo interpretativo em todo o filme. Delicadeza, emoção e intimidade — são aspectos visíveis em cada personagem deste belo filme que trata de um tema tão próximo de todos. Ora, Kar Wai Wrong quer expressar seu mosaico humano com boa dose de afeto e ternura. Talvez por isso limite sua câmera posicionada, demoradamente, nos rostos dos dois atores — inclusive, abusa da beleza de Norah Jones ao focar nos seus lábios que é o centro de desejo de um Jude Law que lhe rouba um beijo em dado momento. E também o diretor é um voyeur, pois angula sua câmera por trás de vidros e vitrines, como se observasse seus personagens à espreita, sem julgá-los. E a trilha sonora de Ry Cooder ampara-se em boleros e tangos, num clima de jazz, permitindo a concentração de suavidade romântica que o roteiro clama. Um filme simples, sem adornos conceituas, a não ser o retrato das vicissitudes do amor nas suas proporções mais banais. O poeta Vinícius de Moraes resume bem o filme, “a vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida”, verdade absoluta.

My Blueberry Nights (EUA, 2007)
Direção de Kar Wai Wong
Roteiro de Kar Wai Wong e Lawrence Block
Com Norah Jones, Jude Law, Natalie Portman, Rachel Weisz

25 opinaram | apimente também!:

Gabriel Fabri disse...

amo o filme!
curti muitos sua crítica, me deu vontade de revê-lo :)

Fábio Henrique Carmo disse...

Cristiano, esse é um dos meus favoritos do Kar-Wai. Grande filme, que me remete a uma fase triste, mas ao mesmo tempo muito enriquecedora da minha vida. Esse filme resultou em uma das primeiras resenhas do "Cinema Com Pimenta". Abraço!

Luiz disse...

Cris, lindo ver v. falando deste filme que amo!!!!!!!!!!! Você já viu Felizes juntos? Abração!

Diego Hatake disse...

Esse filme é muito bom... Um dos meus favoritos. Aliás, o que o Wong Kar Wai não faz que não seja bom, né?

Mirella Santos disse...

Amo esse casal Natalie e Jude, apesar de não ser eles o casal, mas só do fato de estarem no mesmo já me interessei, com exceção de alguns filmes, eles sempre tem um ar jovial e descontraído que faz o filme ficar menos denso de uma maneira agradável. Eu nunca vi o filme, mas sempre ouvi falar bem nele, deve realmente valer a pena pelo o que vejo pela sua resenha. Adorei o texto Cris. Abraços

alan raspante disse...

Você não tem ideia de como eu amo este filme. Acho que chega a ser o meu favorito dentre todos, já que o vi milhares de vezes!!

Ótimo texto ;)

Abs.

Flávio Jr disse...

Oi Cris, ainda não conferi o filme - estou curioso para ver o desempenho de Nora Jone. Parabéns pelo texto, está ótimo.

D. T. S. disse...

Gosto muito do Kar-Wai, mas esse é sem dúvida nenhuma seu filme mais fraco.

Não é que seja ruim, é só que a gente sabe que ele é capaz de fazer muito melhor.

Nem ele deve ter ficado tão satisfeito com o resultado, tanto que nunca mais filmou em Hollywood.

Sei que estou sumido (estou com uma cirurgia no ombro que me dificulta a digitação) mas vamos nos falando.
Grandes abraços.
http://resenhafilme.blogspot.com/

Gabriel Neves disse...

Adorei teu texto, me deu mais vontade de ver. Entra mês e sai mês, mas Um Beijo Roubado não anda na minha lista. Vou aproveitar pra baixar agora, sinto que vou gostar desse.

Por que você faz poema? disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Celo Silva disse...

É um filme interessante, com bons dialogos, mas não me tocou da maneira necessaria. Ainda acho Amor a Flor da Pele o melhor Wong Kar Wai, mas teu texto tá muito bom, como de praxe. Grande Abraço!

Elton Telles disse...

Belo arremate citando Vinicius de Moraes.

"Um Beijo Roubado" é considerado por muitos um filme menor de Wonr Kar-wai, já que o diretor sustenta, no mínimo, 3 obras-primas em sua carreira - aliás, que lindo seria uma análise sua de "Felizes Juntos", tô na espera. Mas eu adoro esse filme pelos motivos que você expõe no texto: doce, suave, elegante...

pra mim, o destaque não é necessariamente Norah Jones e nem o par romântico que ela estabelece com Jude Law, que são charmosos, mas nada apaga o fogo e o brilho dos personagens coadjuvantes. Até tenho o casal protagonista como 'escada' para contar a história de Weisz, Strathairn e Portman, um trio de enfartar corações. Brilhantes são os personagens e as histórias que dividem com o público. É aí que está a grande sofisticação do filme pra mim.

Ma é uma graça. É um filme pessoalmente muito especial porque foi uma sessão no cinema que jamais vou esquecer (motivos externos rs).


abs!

Wallace Andrioli Guedes disse...

Pois é, adoro o Kar Wai, acho o seu AMOR À FLOR DA PELE uma das mais belas histórias de amor que o cinema já contou, e, por isso, me frustrei com o pouco barulho que esse UM BEIJO ROUBADO fez. Acho um pequeno grande filme, delicado e tocante. Strathairn e Weisz são um show à parte, e Norah Jones é uma agradável surpresa. E aquela cena do beijo entre a atriz/cantora e Jude Law, o tal beijo roubado do pouco sutil título brasileiro, nunca me saiu da cabeça...

Pedra do Sertão disse...

Faço os mesmos elogios que estão acima ao diretor...mas gostei do filme!

Abraço

José Francisco disse...

Gosto muito desse filme. Apesar de não ser tão sublime quanto "Amor a flor da pele", Kar Wai faz um ótimo trabalho e arranca uma interpretação sincera de Norah Jones, uma das minhas cantoras favoritas...
Ótimo texto!

Bia Ferreira disse...

olá Cristiano já fui sua leitora assídua em um outro blog seu que não me lembro agora o nome.. eu escrevia no semprechove..
que bom te ler de novo. suas criticas continuam coesas e muito interessantes.
adoro a Natalie Portman vou baixar esse filme, ótima dica.

Kamila disse...

Plasticamente, esse é um filme muito bonito, mas acho as histórias contadas um tanto irregulares. A que eu mais gosto mesmo é a que envolve David Strathairn e Rachel Weisz.

sandra cristina disse...

Muito boa sua resenha!Independente da crítica a verdade é que fiquei com muita vontade de assistir ao filme, pela sua narrativa explícita e, como sempre descritiva. Você tem percepções abrangentes ao avaliar cada aspecto da trama de forma sóbria, consciente de cada detalhe, sem perder o foco e a sensibilidade. Muitas vezes você é tão generoso para com o filme, que o torna maior do que realmente é.
Você citou em algumas passagens: "destinos infelizes" e "sonhos destruídos", o que me pareceu uma das predominâncias da trama.
"Um beijo roubado" assemelha-se à uma colcha de retalhos do cotidiano afetivo, segundo sua amostra.
Um mosaico do mundo moderno ocidental.
Parabéns pelo texto maravilhoso! Agora vê se não esquece de me emprestar!srsr
Beijos.

Karla Hack dos Santos disse...

Teve quem me disse ser muito sentimental por gostar deste filme.. Acredito que não viram a delicadeza que flui na forma simples que se conta o filme...
Sua resenha parece até ter saído da minha mente, tamanha afinidade que tive com ela.

Tem como não gostar de um filme com um trechos destes:
"Eu descobri que não é tão difícil atravessar a rua, só depende de quem te espera do outro lado" ?

Só quem não passou por isto antes...

;D

Matheus Pannebecker disse...

Não lembro de quase nada desse filme e, na maioria das vezes, isso não é um bom sinal...

O que ficou mesmo na minha cabeça foi o extraordinário monólogo da Rachel Weisz. Sem falar, claro, de David Srathairn sempre ótimo...

Facundo disse...

Ótima pedida, vou alugar agora esse filme!!! :-) Valew!

LuEs disse...

Eu ainda não pude assistir a esse filme, mas eu realmente quero vê-lo. Todos falam bem dessa obra, todos comentam positivamente sobre essa obra e o seu texto realmente não me fez ter dúvidas a respeito da qualidade dessa obra.

A sua descrição dos personagens me fez querer conhecê-lo, principalmente porque gosto muito de Natalie Portman, uma grande atriz!, e também Rachel Weizs, que me agrada. Tão logo que o vir, volto aqui e dou a minha opinião sobre o filme!

Gilson disse...

Cris

Excelente texto sobre este filme, inclusive destacando bem a carência do ser humano em sua fragilidades.

Já estava com saudades de vir aqui.

Abração

Eri Jr. disse...

Cristiano, tudo certo??

Sempre tive vontade de assistir esse filme e nunca achei em locadora!! E sua crítica só aumentou a expectativa!! Aconselha-me a comprá-lo ou não???

Apareço pra saber sua resposta!! rsrs

Abraços

Juliana Barbosa disse...

Filme que rouba o fôlego... Amei sua apimentada, Cris, e na real, com este elenco, como haveria de dar errado? Ameiiiiiii a trilha sonora de Norah, bem como curti a interpretação dela! Bjo coisa linda. Ah! Depois passa lá no www.feticheliterario.blogspot.com e leia minha visão dos fatos!

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