Insustentável frieza humana?

Como entender um crime sem motivos aparentes? O que torna o ser humano cruel, à beira da psicose extrema? Difícil identificar a psicopatia ou mesmo enxergar o limite tênue entre a maldade e atos de crueldade. Às vezes, o que se considera visível, não deve ser acreditado — afinal, a obscuridade faz parte da teia da humanidade. Quarenta anos após o seu lançamento, o contundente A Sangue Frio ainda é um filme representativo sobre o universo de uma das piores mazelas do ser humano: a frieza de caráter. Baseado no premiado romance de Truman Capote, o filme teve o texto adaptado fielmente por Richard Brooks que soube muito bem ousar em todos os sentidos, desde os técnicos ao conceito explorado pelo delicado roteiro. A trama centraliza nos dois assassinos que cometeram um crime brutal à Família Clutter, em Kansas por volta de 1959. Richard 'Dick' Hickock (Scott Wilson) e Perry Smith (Robert Blake) mataram sem piedade e com requintes de crueldade cada membro da família. O fato tornou-se foco de toda a mídia da época, mais evidente depois quando o jornalista Capote esmiuçou cada detalhe do caso e publicou o livro contendo todos os detalhes íntimos e também psicológicos dos dois jovens. Poucos anos após o filme foi lançado, é um dos mais fieis trabalhos já realizados na história do cinema, mantendo bem todos os traços físicos ou psicológicos dos personagens por Capote.

Além de denso e detalhista no contorno dos perfis psicológicos da dupla, o tom do roteiro é ardiloso por ter a ambição de colocá-los com comportamentos mais sexualizados. Dick assume suas preferências libidinosas, o vício em envolver-se sexualmente com prostitutas e a compulsão sexual que nutre por mulheres em geral. E certos diálogos dele são dotados de doses individualizadas de malícia que transparece a leve sensualidade. Já Perry tem tendências homossexuais e o que sente é muito dúbio. E o filme deixa a entender que os dois possivelmente tiveram uma relação no período que passaram presos anteriormente — por isso Dick chama Perry de “doçura” e “benzinho”, demonstrando uma intimidade amorosa. Richard Brooks é um diretor astuto, por isso torna evidente a personalidade dúbia de cada um dos assassinos antes do crime, a intenção é desnudar as personalidades deles antes do choque do crime no ato final do filme. Os dois ex-detentos se mostram imaturos, típicos rebeldes, sem maiores perspectivas para a vida. Gostam de viver de maneira irracional e sem apreço por princípios morais. Talvez viciados no sexo, nos roubos que cometem, na bandidagem imoderada. Eis uma juventude psicótica, libertária e propensa à libertinagem?

É perceptível o cuidado de Richard Brooks em não julgar seus personagens, ainda que procure compreende-los com certas indagações expressas nas falas de um ou outro — cruelmente, Dick e Perry não demonstravam arrependimento por nada, mas há momentos que certas reflexões ditas por ambos caracterizem esse senso, claramente. O filme é denso, tem uma atmosfera carregada, envolto em cenas violentas emocionalmente ou físicas. E o texto de Capote é fielmente traçado, pois há uma humanização evidente dos dois assassinos. Por que cometeram um crime tão bárbaro? Qual razão para optar por um destino tão mórbido? O que motiva um ser agir de tal forma? Inúmeros flashbacks que reconstroem as infâncias de Dick e Perry aproximam os anti-heróis do espectador, talvez um recurso emocional do diretor, ainda que não apelativo. Ao posicionar a frieza dos assassinos que acaba por causa estranhamento e sufoco para quem assiste, Richard Brooks investe também na intimidade dos dois jovens. Há uma camaradagem evidente entre eles, inúmeras cenas que explicitam o tom afetivo de um para o outro. Estranho contraste já que psicopatas não têm sentimentos. O roteiro não procura defendê-los, mas a reflexão vai de cada um: como pessoas tão amigáveis entre si poderiam agir com tal falta de caráter?

Ousado para época, o filme tem um apuro técnico perfeito, ainda mais com uma fotografia exuberante que surpreende pelo estilo noir. Dramático, cruel e envolvente — a trama apega-se, incondicionalmente, também na química de Scott Wilson e Robert Blake, ambos no auge da beleza e juventude, que encarnam os assassinos com posturas viris e todo o arquétipo da masculinidade juvenil. Ambos os atores provocam sensações adversas, da fascinação à indisposição. Fascina-se por conta da personalidade determinada, da amizade afetiva de ambos, dos portes físicos dotados de beleza. Mas, causa repulsa quando se evidencia a psicose quando cometem o crime. Por sinal, as cenas do assassinato são carregadas de tensão e angústia, ainda que não se afirme em tons sanguinários. Independente da repulsa que seja visualizar na tela dois homens tão incorretos, a postura varonil dos dois favorece forte atração — aos homens que se identificam com arquétipos machistas e determinados; às mulheres que enxergam na beleza física e na transparente amizade de Dick e Perry um conforto. Obviamente, os atores permitem esses contextos de idealizações, faz parte da magia da Sétima Arte em revestir de brilho o universo de anti-heróis. Mas, polêmica mesmo é a afirmação de que Truman Capote teria tido um caso amoroso com Perry, e foi através da aproximação do escritor com ele que o livro foi publicado com tamanhos detalhes sobre os criminosos. Obra-prima, filme imperecível.

In Cold Blood (EUA, 1967)
Direção de Richard Brooks
Roteiro de Richard Brooks, baseado no livro de Truman Capote
Com Robert Blake, Scott Wilson, John Forsythe, Paul Stewart

19 opinaram | apimente também!:

Edu Maretti disse...

A "humanização evidente dos dois assassinos" vem diretamente do livro de Capote, uma obra-prima do new journalism (ou romance de não-ficção).

No livro "Ensaios" (reunião extraordinária de textos do escritor), Capote conta que, entre as condições para permitir que seu livro fosse filmado, estavam duas: ele quis que o filme fosse P&B e também que as cenas fossem filmadas nos locais reais dos acontecimentos (a casa, o correio, o bar etc), o que aumenta a carga de dramaticidade e realismo.

Já quanto ao boato de que Capote (que era homossexual) teria tido um caso com Perry, isso não passa de folclore, como é comum acontecer em torno de gênios como Truman Capote.

Valverde disse...

Bom texto, como sempre. Fiquei com muita vontade de assistir o filme.

Edu Maretti disse...

PS: Caro Cristiano, no comentário anterior esqueci de dizer que no meu blog publiquei um texto sobre o livro A Sangue Frio. Está aqui:

http://fatosetc.blogspot.com/2011/01/nota-sobre-sangue-frio-de-truman-capote.html

Ccine disse...

Não vi esse filme, mas depois de seu texto, realmente me pareceu bem interessante.
Vou pegar para conferir depois.
Belo texto.

Abraço.

Fábio Henrique Carmo disse...

Cristiano, antes de tudo, ótimo texto. Acabei não vendo neste último fim de semana, mas talvez neste feriado ou no próximo fim de semana eu o veja. Me parece ser ótimo mesmo. Grande abraço!

Hugo de Oliveira disse...

Fico fascinado com as resenhas de filmes publicadas aqui...você é dez.
Quero muito assistir esse filme.

abraços

Hugo de Oliveira disse...

Fico fascinado com as resenhas de filmes publicadas aqui...você é dez.
Quero muito assistir esse filme.

abraços

Hugo disse...

Um dos grandes trabalhos de Richard Brooks.

Toda a história do envolvimento de Truman Capote para escrever seu livro e ainda a condenação de Robert Blake por ter encomendado a morte da esposa há alguns anos, deixam o filme ainda mais instigante.

Abraço

Thiago Priess Valiati disse...

Esta questão da análise da frieza do caráter, sem dúvidas, parece ser deveras interessante. Não vi o filme ainda, e não conheço o diretor. Que erro de minha parte... Mas parece ser uma boa pedida! Vou tentar procurar pra baixar em breve. Belo texto!
Abraços!

Clenio disse...

Uma pequena obra-prima que faz jus ao livro que a originou. Tudo funciona à perfeição, desde o elenco e a direção até a fotografia espetacular (a cena em que um dos assassinos chora e a chuva reflete em seu rosto como se fosse uma lágrima é genial, ainda que tenha sido não-proposital...)

Gosto também do enfoque dado ao caso em "Capote", quase um adendo a esse grande filme.

Abração
Clênio
www.lennysmind.blogspot.com
www.clenio-umfilmepordia.blogspot.com

Kamila disse...

Nunca assisti a este filme, mas ele parece ser muito interessante.

renatocinema disse...

Ver esse post hoje falando sobre a frieza de caráter e sobre a crueldade parece até coisa do destino: Hoje consegui adquirir a cópia da versão original do filme Violência Gratuita.

A Sangue Frio parece o tipo de produção que adoro: roteiro ardiloso, estilo noir, sensualidade e clima denso.

Vou tentar assistir.......em alguns dias.

bruno knott disse...

O livro é incrível... bom saber que o filme é igualmente bom!

sonhosentrepontinhos disse...

Curiosas as exigências dele para que o livro fosse filmado.
O filme realmente deve ser muito bom e seu post aguçou mais ainda a minha curiosidade. Darei essa dica para uma grande amiga minha ela adora filmes antigos principalmente em preto e branco. Você acha que eu acho esse filme em locadora? Ou só comprando?
Beijos, Caah ♥

@sonhospontinhos
http://sonhosentrepontinhos.wordpress.com

Celo Silva disse...

Otimo texto! Filme muito bom, q conheci atraves de vc! Obra - Prima, com cenas incriveis, principalmente as do terço final. Abração!

Marcos Nascimento disse...

Não pude assistir a "A Sangue Frio" mas sempre tive curiosidade jornalística sobre ele, por ser um bom representante do que o Eduardo disse ali em cima. Truman Capote investigou a fundo a mente dos envolvidos, um trabalho brilhante para o jornalista/escritor que ele foi.

Tão brilhante que conseguiu escrever dois romances tão distintos (este e Bonequinha de Luxo). Geniais, claro, mas que destoam tanto um do outro.

Wally disse...

Eu deveria ter visto este filme há muito tempo. Desde que vi Capote e fiquei fascinado pelo processo do livro no qual se baseou (como você mencionou, a polêmica da aproximação de Capote com Perry). Seu texto foi um lembrete bem-vindo.

Gabriel Neves disse...

Acabei de ver o filme, finalmente. E é uma maravilha, gostei bastante do como o psicológico dos personagens é retratado. O espectador começa a ficar do lado do assassino devido à tamanha aprofundação e gostei disso na narrativa do filme. E só tenho a concordar com você numa relação afetiva entre os dois ladrões. Toda vez que Dick chamava Perry de benzinho ou querido eu acreditava numa relação mais profunda do que uma camaradagem.
Abraços!

Tiago Rocha disse...

Já refilmeram milhares de vezes, mas nunca vão supera-lo. Há muita diferença entre uma obra de arte e um simples filme de ação.

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