Psicopata Sadomasoquista

A psicopatia sempre esteve presente na história da cinematografia. Diversas abordagens já souberam explorar as questões que envolvem o traço sinistro da personalidade destes indivíduos assustadores e que se infiltram na sociedade. O Assassino em Mim provocou polêmica no seu lançamento em alguns países, além de certo frisson no Festival de Sundance por conta de cenas de forte teor da violência explícita que fizeram boa parte da plateia deixar o filme em sua metade. Dirigido pelo cineasta inglês Michael Winterbottom, o filme é um conto de perversão sobre uma mente desequilibrada. Funciona também como um modelo de sexualidade obscura, já que insinua atos de fetichismo sob a ótica da morbidez de um psicopata bem diferente do que se espera. O longa aqui é baseado no romance de Jim Thompson que hoje é considerado clássico e já teve adaptações pouco conhecidas — inclusive sabe-se que Stanley Kubrick admirava o livro e considerava uma das coisas mais perturbadoras já feitas na literatura. Além disso, por volta da década de 50, quase foi feita uma adaptação do livro onde Marilyn Monroe e Marlon Brando seriam protagonistas. No ano passado, este filme foi lançado como uma adaptação definitiva da obra. A trama apresenta o xerife Lou Ford (Casey Affleck) que é autoridade máxima na comunidade pequena no Texas nos anos 50. Aparentemente, é um homem pacato, toca piano, mas há algo secreto dentro de sua mente, um lado doentio. Por trás do rosto amável, do sorriso cativante e aparência serena, existe um homem atormentado por traumas de infância e uma fúria crescente de violência. E é basicamente sob as perspectivas desse indivíduo que o longa provoca o espectador.

O roteiro é astuto ao colocar a narrativa em primeira pessoa — Lou narra ao espectador suas ânsias e vontades, bem como expressa seu lado oculto. Reproduzindo essa mente doentia, O Assassino em Mim explora o lado perverso de um policial que comete crimes que aparentam uma forte consequência com seu s traumas de infância — alguns flashbacks reconstroem a existência da vida e expõe que Lou recebeu uma educação maliciosa e dotada de sexualidade por parte da mãe, além de elementos que o roteiro induz para justificar a concepção da personalidade estranha desse homem. Enquanto explora o lado oculto deste policial, a trama mostra o seu envolvimento sexual com uma prostituta da localidade, Joyce (Jessica Alba).

O filme mostra essa relação de tesão louco de Lou que apresenta um comportamento pervertido entre quatro paredes: é o homem que gosta de transar de maneira selvagem, despudorado e violenta com suas mulheres; utilizando-se de elementos do fetiche para se satisfazer, inclusive da violência. Michael Winterbottom não se inibe em mostrar o lado pervertido da sexualidade deste homem que se envolve com uma prostituta, mas que mantém um aparente relacionamento de fachada com uma professora (Kate Hudson). A trama investe inicialmente nessa relação ardente do policial que gosta de sexo masoquista, porém ganha contornos mais psicológicos e tensos quando a violência é explorada. Quando Lou mata Joyce num ato de pura frieza — por sinal, uma das cenas mais chocantes e que provocou repulsa no público quando exibido em diversos festivais —, o cerco se fecha e o filme converte sua índole de drama sensual no suspense psicótico.

Admirável como Michael Winterbottom filma tudo de maneira crua, rígida e objetiva. Assim como seu protagonista, o diretor é frio e não tem receio em exercer a violência agressiva em diversas cenas. O roteiro não se utiliza do melodrama, recorre a fatos da vida de Lou para, de alguma forma, explicar a personalidade já ferida deste homem misterioso que desperta para a violência. E, invariavelmente, aqui há a transparência da sensualidade que se soma à psicopatia como pilares do roteiro. Ainda assim, o realce sobre o aspecto da predileção em exibir o protagonista como um admirador do sadomasoquismo sustenta o nível de malícia que já existia no livro de Jim Thompson — o público percebe o tom libidinal nessas seqüências já que há um contexto mais emotivo, clamor da sedução.

Além da conotação da sexualidade perversa de Lou, a trama mostra esse homem que tenta encobertar seus crimes, ao passo que se afunda em uma teia muito mais sombria e perigosa. O mais provocador deste filme não é a maneira como coloca próximo do público a mente doentia deste indivíduo, mas é como agrega certas tensões de perversões diversas — as questões da sexualidade obscura que torna mais lúcida dimensão do protagonista. Ainda assim, o filme acaba por funcionar mesmo como um drama com elementos de suspense do que propriamente um terror de tensões arquitetadas. Casey Affleck demonstra segurança e naturalidade em cenas de sadomasoquismo ou mesmo onde explora a fúria mais dissimulada e cruel do seu assassino. As prestações de Jéssica Alba e Kate Hudson elevam a potência da sensualidade e também preservam a indignação ao público por conta do que suas personagens vivenciam. É um trabalho de nítido provocação, competente e que merece ser visto, ainda que a direção queira testar o espectador com o peso da violência visual em dados momentos.

The Killer Inside Me (2010, EUA)
Direção de Michael Winterbottom
Roteiro de John Curran, baseado no livro de Jim Thompson
Com Casey Affleck, Kate Hudson, Jessica Alba, Bill Pullman, Liam Aiken

16 opinaram | apimente também!:

Madame Lumière disse...

Oi,
Fiquei curiosa para ver a perversão do rapaz. Se fosse com o Ben Affleck, ele poderia me dar uns tapinhas,kkkkk...
Beijos saudosos,
Madame Lumière

Madame Lumière disse...

Oi,
Fiquei curiosa para ver a perversão do rapaz. Se fosse com o Ben Affleck, ele poderia me dar uns tapinhas,kkkkk...
Beijos saudosos,
Madame Lumière

Ccine disse...

Quando vc começou a relatar sobre o filme me lembrou Dexter, mas depois vi que não se tratava da minha história.
Não conhecia nada sobre o filme, fiquei curioso para ver.
Esse é mas um para minha lista. rs
Ótimo texto!

Sintia Piol disse...

O texto está muito legal, parabéns Cris! Fiquei aqui imersa na vontade de conferir essas loucuras todas aí e avaliar se realmente é tão crú mesmo esse conteúdo. Apimentadíssimo esse filme, né? Espero conseguir pra download.
Bjos.

Kamila disse...

Filmar de uma maneira crua e objetiva é justamente uma das marcas do cinema de Michael Winterbottom. Acho que, por isso, aprecio tanto as obras dele. Não conhecia ainda esse filme, mas fiquei curiosíssima - ainda mais depois de ler seu texto. Parece ser um bom filme.

Celo Silva disse...

Muito bom o texto, Cris. Eu vi esse filme e confesso que gostei, mas não é para qualquer paladar não. Ele cru e cruel. Com momentos que podem deixar o espectador enfurecido. Acho que vc tocou em um ponto vital da personalidade dele, a criação da mãe. Faz todo o sentido. Grande Abraço!

Rafael W. disse...

É um bom filme, que vale pelo choque que proporciona por suas cenas de violência extremamente realistas.

http://cinelupinha.blogspot.com.br/

Gabriel Neves disse...

Não sei, meu santo não bateu muito com esse filme. É maravilhoso ver como uma pessoa extremamente banal pode esconder um lado psicopata tão bem. A psicopatia não é escrachada em ninguém. E realço como a melhor cena do filme a morte de Jessica Alba, a prática do desapego é tão forte que chega a ser assustadora naquele momento. Mas não consigo me acostumar com o resto da história, tudo me pareceu meio dissonante no fim.
Abração!

Hugo disse...

É um interessante filme, com Kate Hudson e Jessica Alba em cenas ousadas que muitas atrizes não aceitariam fazer.

Casey Affleck está perfeito como o sujeito frio.

O detalhe que não gostei, foi a reviravolta final.

Abraço

Raphael Camacho disse...

Acho esse filme bem esquisito.

Gustavo Pavan disse...

Grande texto, meu amigo!
Lembro de um dos motivos de ter assistido ao filme em questão foi a presença de um Affleck.
Desde O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, comecei a acompanhar o trabalho do irmão menos conhecido com afinco. Acho que ele é o ator que o irmão não conseguiu ser.
Um Abraço.

Yasmine disse...

Quando li uma crítica do filme em uma revista, ele me despertou grande curiosidade. Assim q comecei a assistí-lo, senti um prazer imenso ao me deparar com a narrativa, como já citado pelo Cris, por colocar o espectador na mesma posição que o protagonista; e também me encantei com a trilha sonora, country, criando um clima que nos prende cada vez mais e mais a trama. Acho o Casey brilhante, ao contrário do Ben, que pra mim, só funciona por trás das câmeras.

Márcio Sallem disse...

Muito bom este filme e a atuação de Casey Affleck é algo perturbadoramente especial. Acho, porém, que a psicopatia exacerbada dele no terceiro ato da narrativa prejudicam o trabalho que vinha sendo feito até então.

Alan Raspante disse...

A cena do espancamento em Alba é bem forte mesmo. Até gostei do filme, mas é aquele em que você nunca consegue falar se é bom ou se é mais ou menos, né? Só achei que aquele final ficou "novelístico" demais, rs

Júlio Pereira disse...

Esse eu tenho extrema curiosidade. Não só pela polêmica e repulsa causada no público - o mais interessante é que não foi em Cannes, repleto de gente fresca -, mas pelos elogios que ele recebeu. Digo, muitos detonaram, mas pessoas que confio, como você, elogiaram e recomendaram. Vou atrás, com certeza. Só uma coisa: o livro, que você cita no começo, pode ser falta de atenção minha, mas não tem o título dele no texto... Enfim, fiquei muito curioso para ler o livro (ainda mais do que para ver o filme), afinal, Kubrick falou, tá falado. Depois passe o nome da obra literária o/

Anônimo disse...

Seus textos são maravilhosos! Parabéns, você merece!

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